O empreendedorismo de base tecnológica é um celeiro de oportunidades em Mato Grosso do Sul. E, se depender das instituições de amparo à pesquisa, cada vez mais ideias terão espaço para sair do papel – sejam propostas presentes nas universidades ou em comunidades. Atualmente, existem recursos destinados ao segmento, programas e parcerias estratégicas para apoiar o surgimento de mais projetos.
Com o objetivo de apresentar o cenário da pesquisa em MS e os investimentos e ações para acelerar o empreendedorismo, a inovação e a tecnologia, o quadro Entrevista do Mês recebeu em Julho o diretor-presidente da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect), professor Márcio de Araújo Pereira, que também integra o Conselho Deliberativo Estadual do Sebrae/MS. Segundo ele, investir em Ciência é investir no desenvolvimento econômico do País. Confira:
Ao redor do mundo, várias instituições de fomento à pesquisa já reconheceram o poder do empreendedorismo e da inovação para o desenvolvimento econômico. No Brasil, temos percebido uma abertura maior e a Fundect faz parte deste movimento. Em que momento a instituição decidiu priorizar essas temáticas?
Foi uma construção ao longo de alguns anos. Quando entramos em 2017, já tinha essa veia do empreendedorismo há muito tempo. Essa transição já tínhamos percebido em alguns outros Estados, ela começa em 2017 com a transformação da própria instituição. As fundações de amparo à pesquisa, como a nossa, no Brasil, já vinham trabalhando nessa perspectiva nova, porque quem comanda é o recurso e as destinações de recursos federais começaram a trabalhar neste sentido. A FINEP [Financiadora de Estudos e Projetos] começou a separar recursos para empreendedorismo tecnológico, e a Fundect já se preparou para isso.
Qual o caminho agora? Entender que essas soluções já estavam na universidade, tem muita gente criativa, e há soluções também fora das universidades, na sociedade, nas comunidades, e você tem de outro lado um investimento público que já estava procurando estas novas tecnologias, e a Fundect começou a se inserir como hub, fazendo seleção das ideias. O programa Centelha, por exemplo, foi construído com todas as fundações de amparo à pesquisa no Brasil. Em conjunto criamos um programa que pudesse fornecer recursos para que as ideias das pessoas fossem colocadas em ação. Esse é o Centelha, é a primeira faísca que dá um começo para sua ideia. Já tinha o Tecnova, que é um programa que concedia R$ 200 mil para cada empresa. Isso tudo antes da pandemia.
Outras ações também acontecem preparando para isso, já que está no nosso plano de ação, o investimento em empreendedorismo de base tecnológica. E agora, o Sebrae está promovendo o Catalisa também, que é outro avanço, um trabalho junto às universidades para investir nas pesquisas empreendedoras tecnológicas. Então, você tem aquela sonhada tríade, o governo investindo, academia e setor privado trabalhando nessa interação, que precisava. Ainda é um começo, mas está fervilhando. Hoje, temos um grande momento para esse investimento.
E aí, veio a pandemia, tudo que a gente tinha planejado para acontecer, veio de forma mais acelerada. E, ‘casou’ muito bem, porque muitas das ideias investidas no primeiro programa Centelha, estão ajudando nas soluções de TI que foram necessárias na pandemia. Então, muita gente tem agradecido à Fundect, porque no meio da pandemia, ajudou a dar a resposta que a cidade precisava.
Vocês já observam algum tipo de impacto positivo com a adoção destas iniciativas?
Temos um levantamento que está sendo feito. Por exemplo, em Maracaju, temos uma pessoa que criou uma linha de cosméticos veganos com produtos do cerrado: a ideia deu tão certo, que o primeiro investimento dela deu 2.500 unidades de um produto específico, sendo que ela vendia inicialmente, 200, 300 unidades, então teve que se adaptar. Tem negócios, ideias que estão começando, tem a questão ambiental também, mas tem muita solução de TI, e isso que é importante, para trazer essa conectividade, e quando a gente fala em conectividade, nessa pandemia, tudo isso ficou maior.
Já posso adiantar que tanto o Centelha quanto o Tecnova, muita dessa atração de ideias está maior do que a gente imaginava. Logo teremos os dados concretos para demonstrar. Mas, de forma qualitativa, já trouxe muita coisa. Ajuda também a própria transformação das instituições, tem pessoas com muitas ideias. Então, teremos que conversar com a Assembleia, com as pessoas que fazem as leis, para já adequar isso para desburocratizar e facilitar a vida do empreendedor.
São vários atores e várias ideias, o estoque de ideias de Mato Grosso do Sul é muito grande. Quando se abriu o Centelha, foram 574 ideias aplicadas. Em termos de intensidade, seria a quinta maior relação/população que teve, o que nos coloca no patamar entre as principais do país. O Estado tem muitas ideias novas para serem apoiadas, então esse investimento não vai parar.
Por que é estratégico fomentar o empreendedorismo e inovação nas pesquisas?
Quando a gente fala em investimento em ciência, tecnologia e inovação, a gente fala em presente e futuro. Primeiro que nenhum país, lugar nenhum do mundo chegou ao desenvolvimento completo se ele não teve investimento em ciência, tecnologia e inovação. Esse investimento, quando a gente fala do Estado, ele tem feito o seu papel de acelerar isso. A gente vê que isso é estratégico para o desenvolvimento do próprio Estado. Soluções que a gente também não percebe, que às vezes podem ir para a Saúde, para Covid também, e muitos que envolvem até negócios, então você tem as coisas se acelerando de forma cada vez mais rápido.
Para nós, estamos investindo em desenvolvimento, e isso também passa pelo investimento nas pessoas. A partir de setembro, a Fundect está destinando recursos em bolsas de Mestrado, Doutorado e Ensino Médio. É o incentivo “bem econômico”: para cada real investido na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico, você tem outros R$ 10 em ganho para a economia. É um efeito multiplicador que isso vai gerar.
Na sua visão, de uma forma geral, as instituições de fomento à pesquisa no Brasil estão preparadas para este novo desafio, atendendo ainda às expectativas do mercado?
Existe uma reunião do CONFAP [Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa], e nesse Conselho, nós nos reunimos de três a quatro vezes por ano para debater novas ações. E em setembro de 2019, estávamos reunidos em são Paulo, e isso foi uma conversa entre nós, entre as fundações, onde decidimos que seguiríamos por esse caminho, entendendo que o empreendedorismo tecnológico seria fundamental e estratégico para o desenvolvimento do País.
E os órgãos federais, todos dialogando, a FINEP, CNPQ [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], CAPES [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], todo mundo junto, olhando para esse caminho. Então, algumas fundações já começaram a acelerar esse processo. E, Mato Grosso do Sul está se destacando. Em geral, estamos seguindo um caminho nacional. O investimento do Governo Federal, independente da mudança do governo, essa ideia permaneceu. Houve um entendimento que isso é estratégico.
Quais são as suas considerações finais?
Primeiro que, o Estado está preparado, e estamos avançando também nesse diálogo com a iniciativa privada, percebemos que podem investir nas universidades e nas comunidades onde há a pesquisa, temos uma fundação ágil e preparada legalmente para isso, que abraça o marco legal da ciência e tecnologia. O papel do Sebrae é importante nisso. O trabalho em conjunto, colaborativo, coordenado, é o diferencial.
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Márcio de Araújo Pereira é graduado em Administração de Empresas, Mestre em Agronegócios e possui Doutorado em Desenvolvimento Rural. Professor Adjunto, ocupou a função de Pró-Reitor de Administração e Planejamento da UEMS. Atualmente, é Diretor-Presidente da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul.
