Em um destino onde rios cristalinos, cavernas e cachoeiras transformaram a natureza no principal patrimônio econômico, a sustentabilidade deixou de ser apenas uma preocupação ambiental para se tornar parte da experiência turística. Em Bonito, referência internacional em ecoturismo, empreendedores têm incorporado práticas sustentáveis à rotina dos negócios e descoberto que cuidar do meio ambiente também significa gerar valor, atrair novos públicos, fortalecer a economia local e criar conexões mais profundas com visitantes e moradores.
Na semana em que se celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho, as histórias do Hotel Paraíso das Águas e do Restaurante Bacuri mostram como essa transformação vem acontecendo na prática. Os dois empreendimentos, acompanhados pelo Sebrae/MS em diferentes etapas da jornada, se tornaram referências em sustentabilidade e ajudam a consolidar Bonito como um destino onde desenvolvimento econômico e preservação ambiental caminham lado a lado.

Uma história que acompanha o crescimento de Bonito
Há quase três décadas, o Hotel Paraíso das Águas faz parte da história do turismo de Bonito. Fundado por Ari Gomes Santos, um dos pioneiros do município e sócio número um da Associação Comercial, o empreendimento nasceu quando o turismo ainda dava seus primeiros passos na cidade.
Hoje, sob a gestão de Silvia Arevalo Santos, filha do fundador, o hotel mantém o caráter familiar e segue acompanhando as transformações do destino. A empresária assumiu a administração em 2019 e foi justamente após a pandemia que começou a enxergar a sustentabilidade como uma oportunidade de posicionamento e diferenciação.
“Participei de uma oficina do Sebrae que falava sobre as tendências do mundo pós-pandemia. Foi ali que percebi que muitas coisas que já fazíamos poderiam ser valorizadas. Nós já tínhamos energia solar, reciclagem e outras práticas, mas não comunicávamos isso ao mercado”, relembra.
A partir desse momento, o hotel iniciou uma jornada estruturada de sustentabilidade, com foco na gestão de resíduos, economia circular e reaproveitamento de materiais. O trabalho resultou em uma conquista inédita para o município.
Em 2024, o Paraíso das Águas tornou-se o primeiro hotel de Bonito e o oitavo do Brasil a conquistar a certificação Lixo Zero. O reconhecimento foi renovado em 2025 e, em 2026, o empreendimento caminha para receber a certificação pelo terceiro ano consecutivo, demonstrando que a sustentabilidade deixou de ser um projeto pontual para se tornar parte da cultura organizacional.
Com 35 apartamentos e capacidade para receber até 110 hóspedes, atualmente o hotel registra média mensal de aproximadamente 1,4 mil visitantes. O índice de desvio de resíduos do aterro sanitário alcança 91%, resultado obtido por meio da separação correta dos materiais, compostagem e reaproveitamento de resíduos.
“Conseguimos aumentar muito a nossa visibilidade. Hoje já temos hóspedes que nos procuram especificamente por sermos um hotel sustentável. Esse posicionamento refletiu no ticket médio e abriu portas para novos nichos de mercado, inclusive internacionais”, destaca Silvia.
A sustentabilidade também passou a integrar a experiência dos hóspedes. As orientações sobre reciclagem, compostagem e reaproveitamento de resíduos são apresentadas ainda no momento da reserva, reforçadas durante o check-in e sinalizadas em diferentes espaços do hotel. O objetivo é transformar a hospedagem em uma oportunidade de conscientização ambiental.
Nesse contexto, uma das iniciativas que mais chamam a atenção dos visitantes é a compostagem. Os resíduos orgânicos gerados no hotel são transformados em adubo utilizado em hortas e jardins, criando um ciclo que reduz o descarte e gera novos recursos. Parte da produção é utilizada no próprio empreendimento e outra parte é compartilhada com os colaboradores.

A criatividade também se tornou uma aliada dessa jornada. Na brinquedoteca, objetos e brinquedos ganharam nova vida por meio do reaproveitamento de materiais. Já na entrada do hotel, uma antiga geladeira foi transformada em uma biblioteca colaborativa. A ideia surgiu dos próprios funcionários e funciona como um espaço permanente de troca de livros entre hóspedes e moradores. Além de permitir a retirada de exemplares para leitura, o ponto também recebe doação, o que estimula o reuso e a consciência ambiental.
Mais um ponto que integra a visão de sustentabilidade do negócio é a valorização da cultura local. Os quartos exibem obras produzidas pela mãe de Silvia, Maria Enir Arevalo, artista plástica que deixou um legado para a família. Paralelamente, o hotel prepara um espaço cultural permanente para exposições de artistas da região. “A sustentabilidade é uma gama de coisas. Não é apenas reciclagem. É apoiar fornecedores locais, valorizar artistas da cidade, fortalecer a cultura e criar oportunidades para as pessoas que vivem aqui”, resume Silvia.

Gastronomia que conta a história do território
Se no hotel a sustentabilidade aparece na gestão e na experiência dos hóspedes, no Restaurante Bacuri ela começa pelo prato. Fundado pelo chef Sylvio Trujillo e o sócio Vinicius de Faria Rodrigues, o restaurante nasceu com a proposta de contar a história de Mato Grosso do Sul por meio da gastronomia. Após se mudar para Bonito, Sylvio percebeu que havia uma oportunidade de transformar ingredientes regionais, saberes tradicionais e produtos locais em uma experiência gastronômica conectada ao território.
“Eu sempre digo que não dá para contar a história de Mato Grosso do Sul através da culinária sem usar ingredientes locais. Essa sempre foi a essência do Bacuri”, explica. Com esse propósito, os sócios priorizam fornecedores do município. Cerca de 90% dos insumos utilizados pelo restaurante são adquiridos em um raio de até 150 quilômetros. Hortaliças vêm de assentamentos rurais e pequenas propriedades da região, enquanto carnes, queijos, bebidas e diversos ingredientes carregam identidade local e origem rastreável.
Essa conexão com o território vai além da cozinha. O restaurante utiliza madeiras reaproveitadas de antigas pontes da rodovia MS-345, obras de artistas regionais, artesanato indígena, peças produzidas por comunidades de mulheres pantaneiras e elementos que ajudam a contar a história dos diferentes biomas e povos que formam Mato Grosso do Sul.

A sustentabilidade, porém, ganhou uma nova dimensão após a participação de Sylvio em uma missão empresarial à Costa Rica, realizada em 2025 com apoio do Sebrae/MS. Considerado referência mundial em ecoturismo e sustentabilidade, o país serviu como inspiração para diversas mudanças no negócio.
Entre os aprendizados incorporados está a personalização do atendimento. Inspirado pela experiência vivenciada em hotéis e restaurantes costarriquenhos, Sylvio adaptou o sistema de gestão do Bacuri para registrar o nome dos clientes em cada mesa. A medida permite que a equipe ofereça um atendimento mais próximo, acolhedor e personalizado.
Mas foi na gestão de resíduos que surgiu o maior desafio. O Bacuri funciona em um terreno de 500 metros quadrados, dos quais cerca de 450 metros são ocupados pela operação do restaurante. Diferentemente de hotéis ou grandes empreendimentos, não havia espaço para áreas destinadas a uma segunda triagem de resíduos. “Não tínhamos esse privilégio. Precisávamos acertar na primeira vez. Tudo precisava ser separado corretamente em tempo real”, relembra Sylvio.
A solução exigiu treinamento, organização e comprometimento de toda a equipe. Cada setor passou a ter responsáveis pelo monitoramento dos resíduos, e o controle passou a ser realizado diariamente por meio de um sistema digital. A estratégia trouxe resultados expressivos e fez com que, em abril de 2026, o restaurante conquistasse a certificação Lixo Zero, tornando-se o primeiro restaurante de Mato Grosso do Sul e o 12º do Brasil a alcançar o reconhecimento.
Atualmente, o restaurante que gerava entre 12 e 15 sacos de lixo de 100 litros por dia, passou a destinar apenas dois sacos de rejeitos para o aterro sanitário, ou seja, 91% dos resíduos gerados são reciclados, reaproveitados ou destinados a compostagem. Com a certificação, o restaurante teve ganhos econômicos e de visibilidade, com redução de custos e ampliação de oportunidades. O compromisso com a sustentabilidade também passou a atrair clientes, que reconhecem essa prática em diferentes aspectos do negócio.

Uma visão mais ampla da sustentabilidade
Embora a certificação Lixo Zero seja um dos resultados mais visíveis dessa transformação, a sustentabilidade trabalhada pelos dois empreendimentos vai além da destinação correta dos resíduos. A compra de insumos produzidos na região, a valorização de artistas e comunidades locais, o reaproveitamento de materiais e o fortalecimento da economia circular ajudam a reduzir a pegada ambiental dos negócios e ampliar os impactos positivos gerados no território.
Em ambos os casos, a implantação das práticas de gestão de resíduos contou com o acompanhamento da Ciclo Azul, iniciativa sediada em Bonito que atua na logística reversa, compostagem, monitoramento de indicadores e apoio a empreendimentos que buscam certificações socioambientais.
A jornada também avança para novos desafios. No Hotel Paraíso das Águas, Silvia já realiza o acompanhamento periódico das emissões por meio de ferramentas de cálculo de carbono e avalia oportunidades para reduzir ainda mais os impactos da operação. No Bacuri, o tema também faz parte do planejamento futuro, acompanhando uma tendência cada vez mais presente no turismo mundial: a busca por empreendimento com menor impacto climático e maior compromisso com o desenvolvimento sustentável.
“Não existe mais turismo sem sustentabilidade. Em um destino como Bonito, onde a natureza é o principal ativo, nós temos a responsabilidade de devolver para a cidade e para o meio ambiente parte de tudo o que recebemos. É uma questão de equilíbrio”, conclui Sylvio.
Para conhecer mais histórias de empreendedores de MS, atendidos pelo Sebrae, que se destacam na área da sustentabilidade ms.agencia.sebrae.com.br.

