Em 11 de outubro de 2026, Mato Grosso do Sul completa 49 anos de criação oficial, marcada pelo desmembramento do antigo Mato Grosso, em 1977. Ao longo dessa trajetória, a identidade sul-mato-grossense se consolidou na força do agronegócio, nas tradições musicais e gastronômicas e na riqueza dos biomas Pantanal e Cerrado. Essa herança cultural também ganha expressão na moda autoral, em que estilistas e empreendedores locais unem design, ancestralidade e pertencimento para transformar elementos da fauna, da flora, hábitos cotidianos, como o tereré, e memórias afetivas da infância em coleções que traduzem a identidade e exaltam as particularidades do território.
Essa nova geração de estilistas impulsiona a economia criativa sul-mato-grossense com produções focadas na sustentabilidade, desafiando a lógica da produção em massa com o uso do slow fashion, da serigrafia sustentável e do tingimento natural com insumos do próprio solo e da vegetação do estado. Ao agregar valor cultural às peças, os pequenos negócios locais não apenas ampliam a competitividade no mercado nacional, mas também fortalecem o sentimento de autoafirmação e orgulho de pertencer a Mato Grosso do Sul.
De acordo com a gestora dos projetos de Moda do Sebrae/MS, Penélope Herradon, esse movimento não é por acaso: ele responde a um consumidor contemporâneo que busca autenticidade e se recusa a consumir “mais do mesmo”. “O mercado de moda com identidade regional tem um potencial muito grande em Mato Grosso do Sul. O Brasil, de forma geral, vive um movimento de valorização da produção autoral e da internacionalização dos negócios, e a Rota Bioceânica também abre novas possibilidades para que os nossos produtos alcancem outros mercados e outros países. Além disso, temos ativos muito fortes no Estado, como o Pantanal, o Cerrado e toda a nossa diversidade cultural”, destaca a gestora.
Nesse cenário, o Sebrae atua no fortalecimento da moda autoral por meio de ações de capacitação, orientação empresarial e acesso a oportunidades de mercado. O apoio contribui para que estilistas e pequenos negócios desenvolvam suas marcas, aprimorem a gestão e ampliem a atuação, valorizando a identidade regional como diferencial competitivo. “O Sebrae/MS atua para ajudar o empreendedor a transformar talento em negócio. Oferecemos consultorias especializadas, soluções do SebraeTec, cursos e palestras, além de trabalhar o acesso a mercado para que essas marcas cresçam de forma sustentável”, complementa Penélope.
Do crochê afetivo às passarelas e palcos nacionais
A trajetória do artista têxtil e estilista Hígor Euzébio exemplifica a força e o alcance da moda com identidade regional. O primeiro contato com o artesanato e com o crochê veio ainda na infância, observando o trabalho das tias. Contudo, o aprendizado prático ocorreu entre 2021 e 2022, no período pós-pandemia, surgindo como um recurso terapêutico para lidar com a ansiedade durante a conclusão da graduação em Biomedicina. “No começo eu fazia crochê para mim, coisas para casa, tapetes. Nunca tive a pretensão inicial de ter uma marca”, relembra Hígor.

A virada para o universo da moda aconteceu quando suas criações começaram a chamar a atenção de amigos e conhecidos, que viram nas peças artesanais um potencial comercial e estético único. Foi em 2024, ao se inscrever no edital do Festival de Inverno de Bonito, que o estilista realizou seu primeiro desfile. A receptividade do público o incentivou a direcionar seu olhar criativo para aquilo que define como “o quintal de casa”. “Sempre vejo grandes estilistas buscando inspirações fora do Brasil, nas grandes passarelas. Eu resolvi trazer o olhar para o nosso cotidiano, para o Pantanal, para Campo Grande. Tento trazer algum elemento que tangencie nosso bioma, seja na cor, em um símbolo ou emblema”, explica.

Convidado para um primeiro desfile de moda artesanal do Brasil, realizado em São Paulo sob o tema “Brasilidades”, Hígor levou a fauna urbana da capital sul-mato-grossense para a vitrine nacional ao se inspirar nas araras-vermelhas que registrava nos coqueiros das avenidas locais. Em 2026, a marca retornou ao Festival de Inverno de Bonito apresentando um vestido em homenagem ao tuiuiú, ave símbolo do Pantanal.
Atualmente, o trabalho autoral do estilista projeta o nome do estado pelo país. Suas peças em crochê já vestiram personalidades como as cantoras Daniela Mercury, Juliane Gamboa, Marina Sena e Margareth Menezes, além da influenciadora Gkay. Hígor destaca que o suporte do Sebrae/MS foi determinante para profissionalizar a marca e abrir portas no mercado nacional por meio de eventos como o EmpreendeFest. “O Sebrae entra estruturando a empresa para a gente crescer com base sólida e criando as conexões que fazem nosso trabalho expandir nacionalmente”, ressalta.
A moda como ferramenta de resistência
À frente de uma marca autoral, o estilista e artista Anderson Bosh construiu uma relação com a moda marcada pela busca por autoafirmação e pertencimento. Nascido intersexo em 1972, em uma época de pouca compreensão sobre as diferenças, encontrou no desenho de roupas, inspirado também pelo ofício da mãe costureira, uma forma de expressar sua identidade e lidar com os julgamentos sociais. O que começou como uma maneira de projetar a própria imagem tornou-se um caminho de expressão e acolhimento. “A moda surgiu na minha vida para me salvar da sociedade, para me incluir, para me identificar”, afirma.

O talento com o desenho rapidamente chamou a atenção de amigos e familiares, expandindo-se para a criação de figurinos de teatro, dança e cinema até consolidá-lo como um artista da moda. Fiel ao conceito de slow fashion, o trabalho de Anderson é pautado pela exclusividade e por tiragens limitadas, produzindo coleções que dialogam diretamente com a ancestralidade e com o mercado autoral. Em seu modelo de negócios, cerca de 70% das peças são desenvolvidas com uma proposta agênero, além de atender a nichos específicos e explorar vertentes como a moda evangélica sofisticada e sem amarras tradicionais.

Sua trajetória alcançou um grande marco com a oportunidade de expor sua nova coleção, batizada de “Casca Barro Mato Sul”, no Festival de Inverno de Bonito em 2026, que contou com o apoio do Sebrae/MS. Durante o processo de produção, o estilista aprofundou sua pesquisa estética ao investigar os recursos dos biomas sul-mato-grossenses, desenvolvendo métodos de tingimento natural a partir de pigmentos de cascas, folhas e terras do estado como angico, barbatimão, jenipapo, anileira, jatobá e diferentes colorações de solo, colorindo tecidos de algodão e linho com cores da natureza. “Eu fiz um desfile lá em Bonito, apresentando a coleção Casca Barro Mato Sul, e o Sebrae que apoiou a moda, para que a moda existisse lá dentro”, pontuou.
Cotidiano e memória transformados em estampas
Com o propósito de vestir memória, cultura e identidade, a marca autoral Porã nasceu em Campo Grande sob o olhar atento do arquiteto Yuri Chaparro. Antes de empreender no setor têxtil, Yuri atuou durante cerca de nove anos em áreas diretamente ligadas à paisagem urbana e à valorização coletiva, passando pelo paisagismo, pelo patrimônio histórico e pelo urbanismo. Ele explica que essa vivência moldou sua relação profunda com a cultura e com a cidade, pavimentando o caminho para o surgimento da marca entre o final de 2023 e o início de 2024.

A iniciativa surgiu de uma demanda pessoal e de mercado, acompanhando tendências de moda. Ele sentia falta de encontrar uma marca que trouxesse para o vestuário a identidade de Mato Grosso do Sul de uma maneira contemporânea, sem ficar presa a estereótipos. A partir daí, a Porã consolidou-se como um canal para transformar referências cotidianas em peças usáveis no dia a dia, criando uma ponte afetiva entre as pessoas, o lugar onde vivem e o que levam consigo para fora do estado.
Essa narrativa ganha forma em estampas autorais impressas em serigrafia à base de água sobre camisetas de malha 100% algodão. De comidas típicas a uma paisagem marcante, as coleções funcionam como verdadeiros arquivos visuais da cultura sul-mato-grossense, que vão muito além da estampa nas camisetas. “A ideia não é simplesmente colocar um desenho do Pantanal em uma camiseta, é tentar contar uma história através da imagem criando um significado assim carregando um porquê de ela estar ali”, afirma.
Para dar escala a esse propósito, o suporte técnico do Sebrae/MS foi decisivo. Se no início tudo era feito de forma muito intuitiva, o crescimento exigiu uma mudança de chave compreender que não bastava ter um bom produto e apelo visual, mas estruturar pilares fundamentais como gestão, posicionamento de mercado, comunicação e estratégias de venda. As capacitações e a rede de contatos proporcionadas pela instituição permitiram ao empreendedor enxergar a Porã para além de uma marca de roupas, consolidando-a como um negócio estruturado.

Foi com esse apoio estratégico que o projeto ganhou as ruas de vez, permitindo que a marca expandisse sua atuação para além dos canais digitais e conquistasse um espaço físico para a comercialização. Para Yuri, a escolha do local não poderia ser aleatória; precisava refletir a alma do negócio. Ao justificar a abertura da loja física, o empreendedor explica o porquê da escolha: “O mais adequado pela proposta da marca foi a nossa querida Feira Central, lugar onde carrega cultura, vivência e história, tudo que a Porã carrega”.
Participar dos ambientes fomentados pelo Sebrae/MS também possibilitou a troca de experiências com outros empreendedores e a expansão do público da marca. Hoje, para Yuri, a maior recompensa é o retorno orgânico da comunidade. “Ver uma pessoa usando uma peça da Porã pela cidade, reconhecer uma estampa ou chegar à loja dizendo que já conhece a história da marca mostra que estamos conseguindo construir algo que vai além da roupa. Estamos construindo uma identidade que tem relação com o lugar onde a gente vive”.
Para mais informações sobre as ações do Sebrae, entre em contato pela Central de Relacionamento, no número 0800 570 0800 ou acesse: ms.sebrae.com.br.

